
Na Ășltima manhĂŁ, a rua ensaiava o desfile desde cedo, com barulho. Passeava gente de saia comprida; passou um homem de gravata larga e uma moça de vestido verde.
Um homem de bonĂ© dançava sozinho na esquina. Renata levou o suĂ©ter de volta Ă lavanderia de Neuza. âFica com eleâ, disse Neuza, rindo. âAqui ninguĂ©m devolve nada, minha filha.â
âA senhora vai embora decepcionada?â, perguntou Neuza. âNĂŁo. Eu volto para visitar a senhoraâ, respondeu Renata. âEntĂŁo volta em junhoâ, disse Neuza. âEm junho chove todo dia, mas a senhora vem de qualquer jeito.â
As duas brincaram com isso. Lå fora, a vizinhança cantava desafinada, e uma mulher de sapato colorido pulou uma poça.
Renata filmou a rua. Do ponto de vista dela, atĂ© outra mulher, de tĂȘnis e balĂŁo, era parte da despedida.
Comparou o primeiro dia com aquele: antes sĂł apontava, agora pedia e agradecia. âSe pudesse, ficaria mais uma semanaâ, disse a Neuza, na porta. Amava aquela rua, apesar de tudo.